Estou a ler um livro que está a gerar muita polémica no Brasil... trata da questão do "abuso espiritual", isto é, da manipulação e controlo "em nome de Deus".
O título da Mundo Cristão é sugestivo "Feridos em nome de Deus"... a autora é Marília de Camargo César, uma jornalista brasileira, cujo excelente currículo se revê no modo claro e certeiro como escreve.
Sentimento de omnipotência, legalismo, farisaísmo, feridas emocionais não curadas mascaram a profunda incapacidade do líder de perceber as próprias faltas e carências, adubando a lavoura de uma relação abusiva.
(Feridos em Nome de Deus, p. 17)
A realidade brasileira talvez seja mais diversificada e numericamente mais relevante que a portuguesa... mas o ser humano é igual... em todas as épocas, em todos os cantos do mundo. A ânsia por poder e domínio está-nos cravada na nossa velha natureza, pronta a ser estimulada e a crescer, se não for controlada pelo Espírito de Deus em nós.
Pessoalmente, esta leitura está a fazer "desenterrar" muitos fantasmas. Está a fazer vir à tona muitos episódios... e fez-me pensar seriamente se alguma vez irei conseguir desconstruir e arrumar plenamente a influência de um pensamento controlador e fechado, que impede a graça de Deus de ser visível através da operação interior do Seu Espírito na minha vida, e na vidas daqueles que me rodeiam.
Por vezes dou por mim a pensar de forma legalista e farisaica... o passado tem um peso inconsciente nas minhas atitudes. E se alguém me influenciou, agora eu estou em influência (ou liderança) de outras pessoas... Que responsabilidade!
É fácil cair na armadilha das aparências perfeitas. É fácil viver uma fachada de super-cristão. É fácil ser-se dominado por uma omnipotência enganadora e destruidora.
É mais difícil viver como Jesus declarou no Sermão do Monte. As intenções do coração e as acções consequentes (os princípios do Reino de Deus), em contraste com uma religiosidade egoísta e castradora (dos farisues da época).
Assumir a minha fragilidade... é necessário. Perceber que preciso depender do meu Pastor, mais e mais, e levar outros não a depender de mim, mas d'Ele... é basilar.
Como John Burke disse num dos seus estudos da Gateway Church "Há uma parte da nossa mudança que é intencional". Ou seja, preciso expor-me às influências certas. À influência de Deus, da Sua Palavra, acima de tudo, e de pessoas que estão a viver assentes na Sua graça, num processo de transformação como o meu: conscientemente inacabado, mas tendo em vista o modelo de Cristo.
Estou no processo... sempre.