Enterrado na sala de espera da vida, aguardo a minha vez de ser atendido, embora não tenha consulta marcada. Apenas suponho uma chamada utópica, talvez. Já perdi vontade de olhar para o relógio. O tempo é-me indiferente, porque apenas quero que ele passe para chegar a minha oportunidade, se é que vou senti-la abraçar-me e reabilitar a minha vida.
Ainda ontem, não me lembro bem do dia nem da hora, pensava que talvez viesse e, como o argumento irresistível de um filme de acção, seria salvo da minha inércia. Então, deixei-me ficar aqui a ver passar os anos, a vida – a minha vida – num refúgio enganador que apenas alimenta os meus medos e a minha indiferença.
As raízes que me firmam neste recinto remoem a minha amargura, o meu passado ainda presente. Vejo muitos como eu, atafulhados de nada, mergulhados no vazio de propósito, espectadores da multidão que passa, mesmo que tão certeiros a tocá-la, num esforço altruísta de esquecer o seu próprio estado miserável.
Entretenho-me a contar histórias que começam com “Era uma vez” e terminam “e viveram felizes para sempre”... O meu entusiasmo efémero desmaia com esse ponto final na felicidade fantasiosa. Deixo-me ficar preso ao estuque do propósito que construí, firme, de pedra e cal, ao desalento do meu percurso passivo e meio silencioso.
Na minha cabeça vozes do tempo, lugares de antes, sonhos despedaçados entranham-se nos intervalos das minha valências pessoais. Como que ferrugem certeira e mortal, atacam as minhas articulações. Corroem os meus movimentos, limitam-me no crer e no procurar.
Arrasto-me no sonho dos outros. Embriago-me no fazer. Limito-me a respirar. Deixei-me ficar por aqui, sem um destino certo. Nunca vou encontrar, porque nunca procurei. O conforto desta pasma e tranquila passagem pela vida torna os meus dias cinzentos. Desisti de procurar as cores da alegria, os tons da segurança, as gradações da paz.
Sou um eterno espectador da vida. Porque a vida é eterna. E porque limito-me a vê-la passar.
