Rotinas de um eterno espectador

Enterrado na sala de espera da vida, aguardo a minha vez de ser atendido, embora não tenha consulta marcada. Apenas suponho uma chamada utópica, talvez. Já perdi vontade de olhar para o relógio. O tempo é-me indiferente, porque apenas quero que ele passe para chegar a minha oportunidade, se é que vou senti-la abraçar-me e reabilitar a minha vida.

Ainda ontem, não me lembro bem do dia nem da hora, pensava que talvez viesse e, como o argumento irresistível de um filme de acção, seria salvo da minha inércia. Então, deixei-me ficar aqui a ver passar os anos, a vida – a minha vida – num refúgio enganador que apenas alimenta os meus medos e a minha indiferença.

As raízes que me firmam neste recinto remoem a minha amargura, o meu passado ainda presente. Vejo muitos como eu, atafulhados de nada, mergulhados no vazio de propósito, espectadores da multidão que passa, mesmo que tão certeiros a tocá-la, num esforço altruísta de esquecer o seu próprio estado miserável.

Entretenho-me a contar histórias que começam com “Era uma vez” e terminam “e viveram felizes para sempre”... O meu entusiasmo efémero desmaia com esse ponto final na felicidade fantasiosa. Deixo-me ficar preso ao estuque do propósito que construí, firme, de pedra e cal, ao desalento do meu percurso passivo e meio silencioso.

Na minha cabeça vozes do tempo, lugares de antes, sonhos despedaçados entranham-se nos intervalos das minha valências pessoais. Como que ferrugem certeira e mortal, atacam as minhas articulações. Corroem os meus movimentos, limitam-me no crer e no procurar.

Arrasto-me no sonho dos outros. Embriago-me no fazer. Limito-me a respirar. Deixei-me ficar por aqui, sem um destino certo. Nunca vou encontrar, porque nunca procurei. O conforto desta pasma e tranquila passagem pela vida torna os meus dias cinzentos. Desisti de procurar as cores da alegria, os tons da segurança, as gradações da paz.

Sou um eterno espectador da vida. Porque a vida é eterna. E porque limito-me a vê-la passar.

Tópico: Rotinas de um eterno espectador - opinião

Data: 04-04-2010

De: leonel costa

Assunto: tmb num sei

parece-me bastante consciente da eternidade, o que de alguma forma é vantagem ou desequilibrio numa plantaforma fisica, o eu que se apresenta perante as medidas criadas e percebidas. gostava de ver a apreciação do texto por alguem que não vê nem a noite escura.
Apresenta tópicos de uma personalidade madura e equilibrada que espera em alguém motivos de pensares já pensados. É talvez uma tipica personalidade que já não espera no inesperado, ou com ele também desespera. bem pensado!

Data: 06-04-2010

De: Ana Ramalho

Assunto: Re:tmb num sei

O que é importante para alguém cansado de esperar o que não sabe nem porque razão é ser arrancado por livre vontade por braços que o levem até ao lugar onde o inesperado se inicia, num processo que se resume a abraçar a esperança certa, mesmo que crescente e muitas vezes invisível. O lugar ter forma de cruz e escreve-se com sangue para dar vida. Os braços são os de outros espectadores em recuperação - e eu sou uma delas!

Novo comentário