Num devaneio. Num segundo. Entro pela porta principal e invado o imaginário de quem por um momento ou por um tempo d’existe. Aqui fica o registo.
A d’existência é o meu mundo. A marca do meu sonho é o vácuo contínuo. O sopro que me recolhe a alma é o sabor inóspito do medo de repensar-me. Existo, mas desisto.
Desisto de existir como vida além do respirar, como sorriso espelho do coração, como ser inteiro. Estou-me a desfeito em mil pedaços sem mérito nem consolo, isolado pela segurança da moda rotineira que me corrói a esperança.
Desisto de tentar de novo, experimentar outra perspectiva, respirar outros mundos, cruzar-me com outros caminhos, suprir a minha necessidade de pertença de braços abertos. Fico paralisado no meio dos monumentos degradados que acumulei na minha história, na vida virtual que afago para esquecer-me como sou.
Desisto sem grande esforço. Podia lutar por mim, lutar por me manter de pé, lutar para me resolver e ajudar Deus a arrumar-me. Mas acomodo-me no meu facilitismo. Desleixo-me na minha apatia. Recolho-me à espera que uma utopia nasça como sempre sonhei.
Desisto de brilhar, de fazer o mundo um lugar mais bonito, desvendar tesouros alheios, superar-me em todos os sentidos. Estou amarrado por mim mesmo, por não querer ver-me pela luz que me chega. Ofereço mãos fechadas a mãos abertas. Escondo-me.
Desisto de exprimir o que penso, o que me atormenta, o que me suplanta, o que me mói e destrói por dentro, porque (penso que) sei que não serei aceite nos meus lamentos. E fico como um mendigo sentado à frente do prato que me podia dar um pouco de calor e ânimo interior, sem reacção. Enquanto a vida se esfria e o corpo dse resigna a movimentos limitados, vou-me deixando amargar sem amor próprio.
Desisto de ver o lado bom das coisas, procurar causas válidas para as escolhas dos outros, entrar nos seus sonhos e aprender com as suas histórias. E esmago em poucas palavras na crueldade dos meus medos o dito e feito do outro, sem desculpas pelos meus próprios modos relativos de viver sem vida.
D’existo.
