Tem razão, senhor Saramago!

05-01-2010 14:23

 

“A Bíblia é um manual de maus costumes”... muito bem, senhor Saramago!

É verdade, o senhor está certíssimo. Se não o conhecesse minimamente diria que parece um brilhante aluno que não perdeu as aulas da catequese ou da Escola Dominical (conforme a opção).

As suas declarações, meu ilustre compatriota, deixaram-me espantada. Afinal, conhece melhor a Bíblia do que eu pensava. Concordo consigo, mesmo que tenha o paradoxo de se intitular ateu mas falar de Deus como “se” Ele realmente existisse.

Sim, a Bíblia é um livro que expõe sem censura maus costumes... É o relato transparente da história da Humanidade, tendo como pano de fundo o seu relacionamento por vezes pouco ético com o próximo e com o seu Criador.

Não é uma serie de histórias de encantar para entreter-nos. Nem uma colecção de pensamentos positivos para uma auto-ajuda fraca de renúncia pessoal ou uma obra que trata a perfeição inigualável das relações humanas. Não é o retrato de um carrasco que humilha os pedaços de terra em que soprou a vida.

Deus criou-nos, amou-nos mas deixou-nos livres para escolher o nosso caminho. O ser humano optou por ser independente de Deus... desobedeceu voluntariamente, e iniciou a descida de um desfiladeiro de ódios, traições, desilusões, ameaças, guerras, invejas, descontrolo... maus costumes é pouco, quando se fala do nosso comportamento como Humanidade.

Mas, respeitoso senhor Saramago, a Bíblia não menciona apenas o comportamento errado e tumultuoso do homem. Ela fala da esperança de reconciliação com as nossas origens. Fala do reatar da amizade entre Deus e o homem, por auto-recriação do primeiro. O ofendido estende a mão àquele que O ofendeu.

A Bíblia relata o nosso passado, o nosso presente, o nosso futuro. Revela as opções para as grandes questões da vida e da existência, e as consequências dessas escolhas...

Mesmo que viremos as costas a Deus, mesmo que não procuremos conhecer ou reconhecer a Sua existência, mesmo que passemos os dias a descrevê-Lo de acordo com as nossas experiências com pessoas religiosas que O desfiguraram no nosso caminhar: Ele deseja a nossa companhia.

Deus ainda hoje nos dá a hipótese da liberdade autêntica, pintada de vermelho, não pela bandeira da politica, mas pelo sangue que Ele mesmo verteu na cruz da nossa reconciliação.

Jesus revoluciona quem permitir que Ele invada a sua vida, de dentro para fora. Maus costumes transformados em bons costumes? Sim, senhor Saramago, eu estou no processo. Eu, e milhares de pessoas à volta do planeta Terra.

Falar de quem não conhecemos pessoalmente? Uma investigação superficial e parcial que pode levar a lançar um falso testemunho. Um boato. Mas Deus quer ser conhecido. Quer ser desafiado por um coração sincero e aberto para que Se revele pessoalmente.  

A nossa maior eloquência e inteligência não prescinde de uma maior humildade para não perdermos a simplicidade de experimentar o novo – experimentar Deus, pessoalmente.

Ana Ramalho