[Su]cesso

22-01-2010 00:08

Luz, Câmara.. vazio.

Tanta publicidade, reconhecimento e adrenalina, duram um segundo no decorrer dos dois dias que nos dão para a vida. Popularidade invertida. Morte súbita i-mediática.

Como veio, sucumbiu. A muito custo foi construído, mas ruiu. A onda que morre na praia. A flor que murcha mais dia menos dia. O filme tem um FIM. O sucesso cessa.

Uma droga legal, patrocinada pelo público sedento de novidades e figuras a quem admirar, promovida pelo “eu” egocêntrico, estimulado pela projecção imensa, crescente e viciante. Em todos os círculos sociais, em todas as frentes, nos grupos pequenos, na sociedade global.

Mas como veio, foi. O sucesso cessou.

Observamos os escombros da imagem que projectámos, do símbolo que fizeram de nós. Os alicerces corroídos: relacionamentos embriagados pelo interesse, o bem parecer, o status.

Acordamos mortos de terror pela falta de holofotes, público fiel, capacidade de agradar a todos, sobrecarga de tarefas para superar o super e esmagar o médio, como se fosse possível medirmos a nossa importância pelo rótulo de sucesso que damos uns aos outros.

A nossa vida murcha, caída, não tem mãos que a suportem mais, pois o que fazíamos embrulhava e dissimulava o que éramos, e agora não atraímos mais ninguém, sem o glamour esperado, o nome premiado e reconhecido, o requinte de frases feitas, a perfeição em cada detalhe do dia.

Acabou a curta metragem. Fim. O sucesso cessou.

Medimos o sucesso porque tabela? As variáveis são o constante da vida. Em tudo, muito mais no sucesso.

O erro não está na excelência mas em que tipo de excelência, a que preço, com que objectivo. O engano não está em querer ser cada vez melhor, mas no facto de fazer dos outros a escada do nosso sucesso por pura ambição. O perigo não está em sermos reconhecidos, mas em dependermos de ter aplausos de todas as multidões que nos cercam para nos sentirmos gente.

O sucesso pode ser um altar pagão dissimulado que nos escraviza até ao tutano. Como em tudo na vida, precisamos saber lidar com ele.

Rejeito viver na mera carga superficial, pelos binóculos da opinião pública, os desejos de alguém, os meus próprios cumes e alvos egoístas.

Recuso-me a ceder à tentação de existir para o efémero, a máquina dos sonhos alheios, o espelho de todas as minhas arrogâncias.

Preciso parafrasear aquela resposta que levou um Homem à morte. O estilo de sucesso definitivamente impopular para as gentes, mas que recebeu o aplauso do Pai.

O segredo não está na reza milagrosa que me vai atribuir poderes para a vitória instantânea... está no coração rasgado, aberto, disponível para que as palavras sejam a verbalização do sentimento, da vontade, do querer.

Requer disciplina, proximidade de Deus, auto-negação, e tudo aquilo que um discípulo faz por seguir o Mestre.

As palavras são d’Ele... “Jesus explicou: O meu alimento é fazer a vontade de Deus, que me enviou, e terminar a sua obra.” (João 4:34)

Ana Ramalho

 

Tópico: [Su]cesso - opinião

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