Recaída em Pai Maior

19-07-2010 01:05

É confuso isto tudo, Pai.

Estou à frente de uma folha de papel, de lápis na mão e ignoro o que fazer.

Já escrevi tanta coisa e desgastei as palavras em assuntos diversos de mais ou menos sonantes rimas e modos de vida... Mas hoje a escrita é outra. Não sei a frase certa, o motivo adequado, a pontuação indicada. Estou exausta de sentir as folhas presas do meu passado. O passado devia ter passado mas não passou. Voltou. Adormeceu. Acordou. Voltou a dormir.

As lembranças mais negras estão submersas numa cicatriz quase invisível, mas outras lembranças menos suspeitas atiraram-me para o canto da razão, para o choro do vazio, das perguntas que todos fazemos enquanto filhos. Teus filhos.

São como a humidade que cola as folhas velhas, o pó que as amassa... não matam mas moem. Estão lá, mesmo que o seu suspiro seja uma brisa leve lavrada por um turbilhão de sonhos em suspenso.

Desculpa se isto é conversa de filha mimada, mas preciso que realmente me resolvas no emaranhado de fios ténues que me envolvem por dentro e se escondem por fora. Sempre me disseste para Te chamar em caso de emergência para além do dia a dia. Eu sei que me ouves aqui, onde quer que esteja, no lugar em que Te encontro, qualquer que seja o canto do mundo.

Pai, eu sei que Tu és. Mas também sei que eu sou: frágil, falível, volúvel, impaciente, teimosa... se não fores Tu em mim, pior será a dor, o susto, a marca, a recaída. E tu sabes o remédio, o analgésico íntimo que me ajuda neste processo cirúrgico de tão interior.

Preciso sempre de Ti, Pai, todos os dias. No meio das dúvidas e dos temores, Tu ainda és Deus. Sei disso. Ajuda-me a viver neste momento, de papel branco e de coração aberto para Ti. Levanta-me e leva-me Contigo.

Assim seja!

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