Quando chega o desânimo

01-06-2010 09:51

Estou farto! Porque é que me sinto assim?

Segundo os especialistas, uma das causas mais frequentes para o abandono do ministério juvenil é o desânimo. A forma como lidamos com essa situação pode aumentar ou diminuir os anos de ministério.

O facto é que os primeiros tempos como professor, líder de jovens, superintendente ou monitor podem ser uma “lua de mel”. Estamos apaixonados e motivados. Sabemos que Deus conta connosco, procuramos estar actualizados, estamos bem organizados, a nossa equipa está envolvida, mas, de um momento para o outro, parece que cai uma bomba atómica... Acontece algo inesperado e substituímos a motivação por frustração.

Sinceramente, trabalhar com adolescentes e jovens não é pêra doce. Principalmente se esse ministério é exercido com responsabilidade e zelo, os horários são bastante alargados... mas o encorajamento é reduzido. Talvez por isso seja tão fácil ficarmos desanimados.

 

Existem muitas causas para o desânimo:

·                Muitos assuntos para resolver ao mesmo tempo (e-mails; telefonemas; etc.);

·                Tinta na alcatifa da igreja;

·                Problemas de comunicação (ausência dela ou incompreensão);

·                Conflitos diversos;

·                Entregar a carrinha da igreja com mossas... por se estacionar à pressa;

·                Entregar a carrinha da igreja com mossas... por se deixar um miúdo de 17 anos guiá-la;

·                Não dormir por causa do recém-nascido;

·                Crítica;

·                Expectativas frustradas;

·                Falta de respeito;

·                Falta de apoio dos nossos líderes;

·                Apoio deficiente de pais, voluntários e outro staff;

·                Não agradar a toda a gente;

·                Não agradar a ninguém;

·                Violência verbal;

·                Alunos difíceis de amar;

·                Problemas financeiros;

·                Família que não dá o devido apoio;

·                Reunião ou lição que foi um fiasco;

·                Salário (para quem tem!);

·                As manhãs de segunda-feira;

·                Ministério Juvenil desvalorizado em relação a outros ministérios da igreja.

Algumas pessoas já experimentaram muitas, senão todas, estas situações. Algumas deixaram cicatrizes enquanto outras são apenas marcas de “picadelas de insecto”. Quando as acumulamos pudemos ser influenciados na forma como vemos os nossos alunos, ministério, igreja, e até Deus. Chegamos a perguntar “Deus, se tu me amas, porque é que este miúdo está na minha classe?”

O factor que me desmotiva pode ser diferente daquilo que leva outros ao desânimo. As minhas necessidades pessoais, associadas à minha experiência de ministério e o contexto da igreja local, assim como as pessoas com que me relaciono, todos estes elementos são responsáveis pela receita da minha “poção pessoal de desânimo”. Cada um tem a sua. Se existisse uma e apenas uma causa comum de desânimo, então seria fácil identificar e atacar a mesma através de alguns procedimentos. Mas, uma vez que somos seres maravilhosamente complexos e diferentes, não há um remédio universal para este problema. Cada pessoa tem o seu tipo de desânimo. Basicamente, cada um está na sua “salganhada”. (Não desespere. Vêm aí ajuda!)

 

Três sentimentos que trazem desânimo

Ø    Não sou digno – Não podemos comparar a nossa jornada espiritual com a de qualquer outra pessoa. Se julgarmos outra pessoa como menos madura, pudemos ficar inchados, orgulhosos. Se pensarmos que somos menos maduros que outra pessoa, acabamos por sentir que não somos dignos do amor de Deus e do Seu cuidado. O nosso relacionamento com Deus é importante, mais do que a nossa posição em relação aos outros. Neste ponto temos que focar-nos em Deus e nunca nos compararmos com outros;

Ø    Sinto-me culpado – Sentir culpa por não passar tempo a sós com Deus é muito comum. O propósito desse sentimento é de nos levar ao arrependimento e nos chegarmos a Deus, no entanto, quando não sabemos lidar com a culpa a distância pode aumentar. Todos os cristãos erram, a culpa é o sussurrar do Espírito Santo a convidar-nos a voltar à Cruz e sermos inundados pela Graça de Deus. Quando se tornar descuidado em relação ao seu crescimento espiritual, não entre em paranóia ao tentar recuperar pelas suas próprias forças. É necessário nos arrependermos e andarmos em frente.

Ø    Sinto-me sozinho – Todos os cristãos maduros já experimentaram um deserto espiritual. Em qualquer altura, professores e lideres podem se sentir cansados, esgotados e desligados de Deus. Todos os heróis da Fé e cristãos tiveram momentos em que se sentiram abandonados. Este problema existiu, existe e vai continuar a existir. Não estamos sozinhos. Não devemos permitir que este sentimento nos deite mais para baixo.

 

O que o desânimo tem de verdade?

O desânimo é uma realidade em todos os tipos de ministério. Onde existem pessoas, existe pecado. Onde existe pecado, os problemas abundam. Onde os problemas abundam, aparece o desânimo. Contem com ele! Quando dizemos “sim” ao ministério, também dizemos “sim” a períodos de desânimo. Se alguém não admite ter momentos de desânimo deve viver noutro planeta. Algumas duras realidades:

>>> O desânimo magoa

Os cristãos podem ser peritos em esconder os seus sentimentos. Alguma vez aconteceu chegar perto de alguém e perguntar “Então, tudo bem?” e essa pessoa dizer “Tudo bem! Louvado seja Deus. Não podia estar melhor!” Então? Está mesmo? Ou é apenas a “resposta cristã de conveniência”? Como é que alguém se pode sentir bem quando um dos rapazes do trabalho de rua nos manda um sinal pouco decente com a mão, e grita uma frase não muito agradável acerca da nossa mãe? Não se pode estar bem!

Muitas igrejas têm-se tornado lugares impossíveis para revelarmos o que sentimos quando estamos magoados – especialmente quando estamos a liderar. O facto dos outros líderes não serem transparentes não significa que eles não estejam a sofrer. O desânimo magoa. Pode alterar o nosso humor, magoar o coração, tornar-nos agressivos para com Deus, levar-nos a perder a objectividade, e ainda prejudicar o nosso relacionamento com os outros.

>>> O desânimo é inoportuno

A experiência diz que os períodos de desencorajamento seguem um período de sucesso: após um retiro poderoso, um evento evangelístico espectacular, uma viagem missionária que marcou vidas. Muitas vezes montanhas espirituais são seguidas por vales de desânimo.

Por exemplo, Elias, após um fim de semana em “retiro”, no qual Deus destruiu 450 profetas de Baal, teve uma desesperante queda espiritual. A rainha Jezabel intimidou-o e Elias fugiu. Ele queria morrer!

Não acha que Elias estava num avivamento espiritual? Eu acho! Eu estaria a festejar pelas ruas, com a minha espada no ar, e a cantar como o tempo de Deus é prefeito. Mas, por alguma razão, Elias não conseguiu ver além da ameaça da rainha. Então? O poder de Deus contra o poder de Jezabel? Não há dúvidas de quem venceria. Mas, no seu desânimo, Elias foi apanhado pelas suas emoções e não foi racional... Já agora... qual é a “Jezabel” da sua vida?

>>> O desânimo é egoísta

A verdade que causa mais repulsa é que o desânimo é centrado no “eu”. Fico desencorajado por causa da minha situação, de algo que alguém me disse, da forma como um aluno me tratou, porque os outros professores não confiam em mim, porque o pastor pôs em causa a minha liderança. É egoísta, feio e errado!

As pessoas desanimadas gostam que o desânimo se instale. Dizem “Estou desanimado. Vou ficar desanimado e ninguém vai mudar aquilo que estou a sentir. Deixem-me em paz!” Ui! O desânimo irá continuar enquanto estivermos focados no “eu”.

>>> O desânimo é solitário

Os dias (ou semanas ou meses) de desânimo são tempos muito escuros. O desânimo gera desespero, abatimento e até depressão. Todos este sentimentos são fardos que nos deitam abaixo. Não me levam a fazer uma festa, nem a interagir com as pessoas.

É mais fácil evitar as pessoas do que convidá-las para partilhar a nossa dor, quando estamos desanimados. Somos levados por mentiras como “Não posso permitir que as pessoas me vejam assim” ou “ Os outros não me querem ver neste estado” ou ainda “Eu consigo lidar sozinho com isto”. O facto é que ficamos sozinhos porque evitamos irmãos e irmãs em Cristo – aqueles de quem mais precisamos e que são as melhores pessoas para nos ajudar. Se estamos deprimidos, devemos procurar ajuda.

 

Esperança no meio do desânimo

Há esperança, e esperança em abundância, porque o Deus do universo está envolvido no processo. Não perca de vista a Luz eterna no meio da escuridão passageira. Quando o desânimo vier, conte que Deus irá usar esse período para aperfeiçoar o seu ministério.

Deus vai afinando áreas da nossa vida e ministério, além de mostrar a Sua fidelidade. Gostaríamos todos que Deus usasse uma ferramenta mais branda para nos aperfeiçoar, mas por razões espirituais que desconhecemos, o desânimo parece preceder a eficácia. Talvez Deus use períodos de desânimo para nos levar a nós e aos nossos ministérios a lugares mais profundos e melhores.

 

Passos para lutar contra o desânimo

1.     Confie que não está só >> Todos lidamos com algum tipo de problema, luta, assunto, desafio, embaraço. Identifique o que o está a desanimar (ou veja o que está no Nº1 do Top 100 de desânimos) e reconheça que faz parte da raça humana! Não é o único a lutar com esse assunto, seja ele qual for. Pode ser penoso, mas não existe apenas nessa igreja, Escola Dominical ou Ministério de Jovens;

2.     Procure um Mentor >> Tem um mentor que o ama e encoraja? Em Tito 2, Paulo encoraja as pessoas mais velhas a serem ensinadoras, instrutoras, ajudadoras e mentoras dos mais novos. A pessoa ideal para ser nosso mentor deve ter experiência no ministério e compreender o mundo do ministério juvenil. Procure pessoas mais velhas, sábias, que se preocupem consigo e queiram que vá mais longe. Esta pessoa pode ser da sua igreja local, para que a partilha se faça de forma mais aberta. Tenha tempo para investir e desenvolver esta relação;

3.     Tenha amigos fora do ministério >> É tão importante conhecermos e interagirmos com pessoas que partilham a mesma paixão que nós por este ministério, quanto é termos amigos fora dessa esfera. Passe tempo com um amigo que o faça rir, pensar, que o desafie. Passem tempo juntos a passear na praia, falar do último livro que leram, beber um café, fazer exercício, ter o mesmo hobbie – tudo excepto ministério juvenil. Tal como precisamos de um dia por semana para descansar, também precisamos de uma amizade para nos afastar um pouco das nossa tarefas de ministério;

4.     Saiba que nem todas as pessoas vão compreender o seu ministério, nem a si >> A lista de potenciais queixosos pode ser enorme: pais, alunos, lideres da igreja, o tesoureiro, o contabilista, o porteiro, a pessoa que nos coça as costas, a mulher do pastor. Todos tem algo a dizer, uma opinião para dar, uma critica para acatarmos, e uma nova visão das coisas. É importante sermos bons ouvintes e eternos aprendizes, mas às vezes precisamos de mais do que escutar e aceitar. Seja gentil. Sorria. Diga que não concorda e avance sem sentimento de culpa. Muitas pessoas não tem a noção do que é estar a exercer ministério juvenil e como tal nunca nos vão compreender;

5.     Faça uma pausa >> Claro que temos sempre coisas para fazer. Muitas vezes estamos atrasados, muuuuito atrasados. Se isso for resultado do nosso descuido ou falta de planeamento, é errado. Mas se estamos a trabalhar e a fazer o nosso melhor, então é importante compreendermos que precisamos de uma pausa. Deus deu-nos um dia por semana para isso, mas quem trabalha no ministério, trabalha ao domingo. Escolha outro dia da semana. Se não o fizermos, acabamos por ficar esgotados. Aproveite esse dia para organizar a sua casa, tratar de assuntos que não estão ligados com o ministério, etc;

6.     Tenha tempo para si >> De vez em quando, tire um tempo para estar sozinho, reflectindo no seu ministério. É um tempo de reflexão, para arrumar as ideias e recarregar baterias. Jesus fazia isso no seu ministério. Enquanto andava de uma cidade para a outra, ele tinha tempo de sobra para pensar, etc;

7.     Faça arrumações >> Ponha no lixo aquelas pilhas de papel com 2 anos que planeava ler um dia, os 75 post-its que estão a decorar a secretaria e o correio dos últimos 3 meses. Talvez encontre uma conta por pagar ou até um cheque reembolso no meio da confusão.  Embora algumas pessoas trabalhem sem problemas quando o escritório está desarrumado, a maioria de nós acha que isso leva ao caos. Ou seja, não trabalhamos de forma tão eficaz. Só de olhar para a confusão da secretária ficamos desmotivados para coisas mais relevantes e maiores. Livre-se de algum pó, sujidade, arrume o escritório e liberte-se desses sentimentos desencorajadores;

8.     Crie um “Registo de desânimo” >> Uma espécie de diário onde registamos as nossas frustrações, raiva, queixas e nomes das pessoas que nos fazem passar das marcas. Ao escrevermos temos algo de concreto para reflectir, para ponderar. Ajuda a crescer enquanto vamos aprendendo a lidar com o desânimo. Também serve de lembrete: o desânimo é como uma onda que vai e volta. É bom saber o que nos espera com a próxima vaga. (Mas faça com que ninguém descubra este registo, caso contrário poderá apanhar um tsunami enraivecido em vez de uma onda);

9.     Crie um “Ficheiro de Reconhecimento” >> Quando receber um mail, postal, carta ou qualquer outro tipo de reconhecimento pelo seu trabalho (releia esta última frase... sim, é possível que isto venha a acontecer!!!), guarde! Às vezes somos tentados a mandar essas coisas para o lixo, mas não o devemos fazer! Em vez disso, o melhor é imortalizarmos o momento, guardando essas recordações numa caixa. Estas memórias são um oásis no meio do deserto do desânimo. Guarde para rever quando estiver a passar por um desses momentos;

10.  Faça um compromisso pessoal duradouro >> Esta é a última decisão mas a de maior impacto. Quando disser sim a Deus e comprometer-se a ir onde Ele o levar e fazer o que Ele quer, Deus irá usa-lo, à Sua maneira e no Seu tempo. Ao fazer um compromisso sério com Ele, as nuvens do desânimo irão evaporar quando aparecerem, pois sabemos que compromisso tomamos. Comprometa-se a:

Ø    Andar devagar, mas em segurança (Pv 14: 15 e 16)

Ø    Avaliar regularmente o seu coração e motivação (Pv 20: 8 a 12)

Ø    Não entrar na corrida dos números (Mt 18:12)

Ø    Não criticar o passado (Fp 3:13)

Ø    Fugir da armadilha da comparação (Gl 6.4)

Ø    Concentrar-se nas prioridades (Mt 22: 36 a 40)

Ø    Ter calma (Hebreus 10:36)

Ø    Servir (Mt 20: 26 a 28)

Ø    Aprender constantemente (Pv 4:5; 13:20)

Ø    Viver contente (Fp 4:11)

Palavras desencorajadoras e pensamentos que nos desanimam vão e voltam, mas o nosso Pai amoroso e celestial quer que os Seus filhos tenham outra perspectiva - a Sua perspectiva – acerca de como viver. Confie Nele e lembre-se que Ele está consigo nesta viagem.

“O Senhor é o meu pastor; nada me faltará. Deitar-me faz em verdes pastos, guia-me mansamente a águas tranquilas. Refrigera a minha alma; guia-me pelas veredas da justiça por amor do seu nome. Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam” (Salmo 23: 1 a 4)

 

Baseado no livro Your first two years in youth ministry,  da autoria de Doug Fields. Capítulo 2: Why do I feel this way? Dealing with discouragement, Zondervan; Traduzido, resumido e adaptado por Ana Ramalho