Palavra: lamento

19-02-2010 00:57

 

No mesmo sítio em que me deixaram, fiquei. Fechada, com o miolo amarelado pelo tempo e pelo uso que me deram... estou trancada por opção de quem me quis mas já não me quer.

Parece que a minha idade empatou-lhes a vida. O meu clamor foi intenso demais para hoje. A minha mensagem caiu em vão num solo embravecido pelo pensamento alternado da dúvida e do mundo.

Já estive aberta e em plena acção. Viam-se ao espelho de água límpida, clara, suprema, que saciava a alma no momento mais difuso e limpava o centro de tudo o que eram, de todas as mazelas e relentos estranhos que mingavam os dias dos seus cansaços.

O pó que me cobre semana sim, semana não, representa o apreço perdido. Sou mais uma mascote do que um instrumento. Sou mais um amuleto do que uma ferramenta. Sou mais um monte de papel do que um papel que faz mudar os montes ou procurá-los para conhecer o sentido do existir, e de quem nos dá a existência.

Tornei-me num mero manual acidental dos dias cinzentos. Um místico adivinhador de conveniência. Um texto a ser recortado em fragmentos do que lhes interessa. Marco de cerimónias, mas menos marco de vidas.

Trocada por outras vozes, outros mundos de encantar ou histórias de terror, outros méritos, outros métodos. Pelo menos para quem me quer apenas em parte, ou para quem me põe de parte.

Apareço na História, de sagrado a profano, de acordo com o uso e amor que me dão. Sobrevivi a muitos ventos e intempéries. Sou embebida de mistério, na mente de muitos, mas a luz que tenho para oferecer é clara, infalível, essencial para despertar de um sono extra-natural.

Mas quando alguém sacia o sentido da vida em mim, vem com sobras para partilhar. Quando o coração sincero me busca e deseja, transformo o íntimo mais estonteado ou triste em alguém com razão para viver. Quando sou aberta e me abrem as portas, invado com amor e precisão o estofo de orgulho, mágoa, egoísmo. Desmorono o erro.

Levo o ser humano a conhecer-se, e a tomar para si a responsabilidade da sua condição, sempre apontando para a solução, e para o certo da consequência das suas escolhas.

Hoje deixo o meu lamento. E deixo-o por escrito porque, embora fale, estou encarcerada entre duas capas pretas e não me deixam falar...

“A palavra de Deus é viva e eficaz. É mais penetrante do que uma espada de dois gumes, chegando à distinção da alma e do espírito, como que à junção de osso e medula. Ela é capaz de distinguir os pensamentos, as intenções do coração.” (Hebreus 4:12, versão “O Livro”)

Ana Ramalho

Tópico: Palavra: lamento - opinião

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