Óbito em espera

01-09-2010 21:28

Pai, arrisco a tornar-me inconveniente por mérito próprio. Estou de rastos em mim mesma, de dor cá dentro, de suor e lágrimas irrelevantes para o resto das paisagens humanas que me cercam nesta noite solitária.

A melancolia que me é natural explode de um momento para o outro, enquanto recupero imagens do passado, de mesa farta, de risos e esperança, memórias endereçadas para o nada que me esconde o presente.

Choro por um óbito virtualmente permissível, um desmaio total do passado, um corte progressivo com a vida. Uma pessoa nova que se foi e uma velha natureza que a depôs. Uma vida tirada por ela mesma e atirada para a valeta do aqui e agora.

Dói quando arrancam parte do nosso corpo, mas a dor mais profunda vem do rasto invisível quando alguém escolhe deixar o Corpo e morrer na sua própria escolha e condenação.

Os lenços amarfanhados de pranto esbarram-se nos olhos da minha alma, absorvendo o mar de lágrimas incisivo e retido pelos dias que deixei para trás das costas, sem encosto sólido nem quadro seguro para agarrar.

Não sei como expressar em total fluidez o murmúrio que este velório ininterrupto rasga a ferro e fogo no mais íntimo do que sou. O passado passou e o presente é um embrulho envenenado, que cheira a morte passiva, a um futuro no caixão dos pêsames se não houver um milagre, retido pelos restos mortais de quem deixou a fonte da vida.

Nesta prosa tão minha, sei que conheces o que o meu lamento esconde e as palavras se desdobram em múltiplas ideias, Pai. Ainda bem que Tu sabes tudo e acima de tudo, consolas o mais fundo e profundo peso que abate o coração sensível pelo tempo e os dias – o meu.

Se me refugio em Ti nesta hora como em todas as outras é por isso mesmo. Tu ainda não assinaste a certidão e deixaste o óbito em suspenso para uma nova oportunidade imerecida, graciosamente disponível. Sei que farias o mesmo por mim, pelo vulto ausente, por todos os que ainda respiram mas já não vivem contigo.

Preciso que ressuscites a esperança do meu coração para não desistir abruptamente do resto do mundo. Faz isso em mim, Pai. Quero continuar a confiar que mudas vidas mesmo que outras te ponham de lado. Eu sei que o fazes, mas dá-me essa certeza cá dentro. Preciso de Ti, mais uma vez. Sempre.

Assim seja!

Ana Ramalho

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