O "Princípio Pai Natal"

20-09-2010 14:46

Estou aflita, espantada e muito preocupada. Não é propriamente por um susto repentino ou uma notícia bombástica, mas por um sucessivo desenrolar de afirmações e atitudes que me põe alerta e faz passar para a escrita o que me perturba.

Desconfio que me vão achar exagerada. Eu gostaria antes que me chamassem realista. Não porque mereça o título, mas porque há factos a mais a dar razão ao que me traz a esta pequena prosa.

Perturbam-me estes chavões: “Segue os teus sonhos”, “O que importa é te sentires feliz” ou então “Segue o teu coração”. Pior é quando pomos Deus ao barulho e queremos que Ele “apare os golpes” das nossas decisões irreflectidas: “Deus vai fazer o que queres”, “Deus vai realizar os teus sonhos” ou ainda “Toma posse desse sonho”. Perturba-me, porque os resultados práticos dessa teologia popular trazem danos a mais para o prazer ou apenas a ilusão que dão.

Confundimos objectivos realistas com sonhos cor de rosa, mas pior ainda, confundimos Deus com o Pai Natal... Achamos que Deus nos vai dar carta branca a tudo o que queremos, que somos o centro da Sua vontade, que Ele não nos quer ver amuados e, por isso, tem que nos dar o que queremos, como e quando queremos. Então passamos a agir com este falso principio: Deus é o Pai Natal.

Que eu saiba, não fui eu que dei a vida numa cruz. Não sou eu que sou o centro do Cristianismo: é Cristo. Neste momento vejo muitas vezes este papel invertido... e se isso é natural na minha velha natureza que teima em me controlar, não precisa ser estimulado quando nos apresentamos perante outros irmãos que estão interessados na partilha da Palavra de Deus preto no branco.

Há uma geração de filhos mimados, exigentes e inconsequentes porque deixámos entrar uma espécie de romantismo teológico que é atraente aos ouvidos mas ferozmente perigoso. Os bancos das casas de oração vão ficando vazios daqueles que acabaram por ter que lidar com a realidade de que ser filho de Deus não é ter todas as vontades satisfeitas. Essa ausência mistura-se com a revolta, a amargura e o conflito interno de pessoas que Deus ama mas que não sabem que Ele é verdadeiramente, porque nunca experimentaram um relacionamento construído passo a passo, mas um acontecimento ou experiência aqui e ali.

Passar tempo a mastigar a Palavra de Deus urge nesta geração tão mal nutrida, no corpo e na alma. Passar tempo a sós com o Pai é essencial para uma geração que se cansou de luzes e efeitos especiais vazios de fruto nas suas vidas. Passar tempo com cristãos autênticos – na sua essência transformada e na sua atitude diária – é fundamental para uma geração que se fartou de polimentos e fachadas.

Quando Ele fala connosco e toca onde ninguém consegue, e transforma como ninguém pode, assumimos passo a passo a dependência que vai para alem dos resultados. Está firmada n’Ele. Mesmo entre crises, fracassos e desaires, há uma centralidade e uma paz incontornável que só Ele tem capacidade de gerar no nosso íntimo.

A questão passa também pela disponibilidade que temos em ser contrariados, corrigidos, alertados. Normalmente fugimos destes meios porque mais tarde ou mais cedo vamos sentir que precisamos deixar os nossos sonhos egoístas e demagógicos e permitir que Deus nos leve onde Ele deseja, como Ele deseja. Pelo menos eu tenho esta luta, todos os dias... Eu ou Deus.

Um dia escrevi “Os sonhos de Deus para nós podem ser menos sofisticados do que os nossos mas, de certeza, são bem melhores!” Deus é a primeira pessoa interessada no nosso bem. Mas o que nos faz bem pode não ser o que queremos a todo o custo. E pode não ser através dos meios que teimamos em usar, muitas vezes sem pensar. Deus vê o que nós não vemos e sabe o que não sabemos. Não são as palavras soltas que apanhamos do ar num domingo ou outro que vão fazer a diferença no nosso trajecto de vida.

É para esta intimidade, autenticidade e simplicidade que precisamos caminhar. Sejamos realistas. O Pai Natal não existe.

 

Ana Ramalho

 

Tópico: O "Princípio Pai Natal" - opinião

Data: 21-09-2010

De: Paulo Pedro

Assunto: Abençoada!

É preciso mais vozes a "pôr o dedo na ferida" como tu.Está bem ilustrada a situação, cada vez mais queremos ter as bênçãos e não a direcção do ESPIRITO SANTO, só ELE nos Santifica e transforma.Mas quem quer ter uma vida nova? é mais fácil ter um pai natal na vida velha.Um abraço!

Data: 22-09-2010

De: Ana Ramalho

Assunto: Re:Abençoada!

Paulo, obrigada! Abraço!

Novo comentário