O homem do carrossel

16-08-2010 01:49

Lá estava ele. Sentado. De costas voltadas para a animação feirante que lhe dá o pão para a boca. Olhar vago para a multidão que assiste ao espectáculo do divertimento alheio, parte dela à espera da sua vez de ter um momento de alegria e distracção.

De tão habituado às luzes e às vozes ensurdecedoras dos colegas da cabine, ameias com a música a metro que se repete minuto a minuto, hora a hora, dia a dia, esqueceu-se do espanto original que lhe encheu as medidas na primeira vez que veio à feira.

Tinha uns 3 anitos. O pai levou-o às cavalitas. A mãe trazia as irmãs pela mão. O carrossel fascinou-o desde o primeiro momento. Chorou depois de ter dado a primeira volta. Queria mais. Todos os anos ficava ali, especado a ver as outras crianças dar uma volta, e outra, e outra... A vida dele também deu muitas voltas e depois de desistir de estudar, e do divórcio dos pais, juntou-se aos homens do carrossel, de vila em vila, de cidade em cidade, a fazer o sorriso, a alegria de miúdos e graúdos.

Naquela noite, vinte e cinco anos depois da paixão à primeira vista, à primeira volta,  sentado à espera que a volta dos outros passasse, o seu rosto espelhava o cansaço da vida, o hábito da obrigação de ganhar o pão, o suor da agitação da última noite naquela localidade. O entusiasmo das primeiras viagens país fora tinha ido embora. A animação que ao início o movia era assunto dos bastidores. A adrenalina limitada ao momento de se levantar e ir picar os bilhetes.

Enquanto o via, imaginava como fazemos o mesmo em relação a Deus e à nossa relação pessoal com Ele.

No princípio reina a adrenalina de descobrirmos o Seu plano fantástico para as nossas vidas, de desvendarmos pedras preciosas da Sua Palavra, de desenterrarmos histórias de vidas passadas e presentes que nos motivam a ir mais além.

Abraçamos a verdade do Seu amor, do Seu cuidado, dos Seus “sins” e “nãos” com toda a força que temos. Partilhamos com outros a nossa própria descoberta, mesmo que ainda com um conhecimento simples, mas espontâneo. De alguma forma, desejamos que todos experimentem o mesmo que estamos a experimentar.

Com o tempo, vamos amadurecendo, as provas chegam, as dúvidas são inevitáveis, os conflitos surgem sem ser convidados, os erros nossos acontecem mesmo que tentemos agradar a Deus em tudo, e os erros dos nossos irmãos (que são falíveis como nós) também aparecem... e a paixão arrefece.

Com o tempo esquecemos os dias em que a nossa chama por Deus mexia com todas as nossas emoções e com a nossa razão. Ficamos mais frios. Mais distantes. Começamos a viver do passado. Temos um hábito mais do que uma paixão. Enquanto os outros – aqueles que estão na sua viagem de descoberta -  aproveitam as bênçãos e o fervor da primeira corrida, nós, de costas voltadas para eles, concentrados no nosso umbigo, esperamos que a viagem passe para sairmos e regressarmos no próximo culto.

Não defendo um cristianismo infantil, superficial e emocional. Mas temo que se não vigiarmos o nosso relacionamento pessoal e espontâneo com o Pai não passemos de filhos que o “suportam” por interesse ou medo, e não por amor. Isto é um enorme perigo.

Quando vêem as dúvidas, os embates, os conflitos, as provas, o melhor lugar para estar é com o Pai – a sós com Ele e a Sua Palavra. O salmista diz “Mesmo quando andar pelo escuro desfiladeiro da morte, não terei medo, porque tu estarás comigo. A tua vara e o teu cajado me amparam.” (Salmo 23:4). Ele está connosco – mesmo que não O vejamos, não O possamos sentir ou até escutar. Ele promete isto. E em quem mais podemos confiar?

Quando erramos, caímos, falhamos, a melhor maneira de recomeçar não é a “remendar” a vida à nossa maneira, mas a ir até ao Pai e confessar a nossa queda, a nossa falha. “Meus filhinhos, digo-vos isto para que se mantenham longe do pecado; mas se pecarem, existe um advogado a nosso favor junto do Pai. É Jesus Cristo, o justo. Ele tornou possível a nossa relação com Deus, pois que por ele foram expiados não só os nossos pecados, mas os de todo o mundo.” (1 João 2:1-2).

A vergonha e a culpa são os alertas interiores que Deus nos deu para sabermos quando precisamos ir até Ele e falar daquilo que Ele já sabe e conhece. São os instrumentos que Ele nos dá para nos voltarmos para Ele, não para fugirmos d’Ele. Quanto mais tarde o fizermos, mais erros vamos acumulando e pior vai ser a situação. A melhor forma de resolver o erro é evitá-lo. A melhor forma de multiplicar o erro é tentar escondê-lo. Não há maquilhagem possível... Ou tratamos a ferida ou ela vai apodrecer!

A nossa paixão por Deus pode morrer se não for cuidada, alimentada, limpa, gerida, dia a dia. Não basta o dia da decisão. É preciso decidir amá-Lo todos os dias – mesmo aqueles em que simplesmente dependemos do que Ele diz.

Como aquele homem do carrossel, podemos ficar reféns do hábito, numa vida morna, rotineira, uma vida que nos passa ao lado. Eu não quero isso para a minha vida. E tu?

“Pai, que eu mantenha os meus olhos em Ti, sempre. Que possa amar-Te cada dia, mesmo quando não me dás o que quero, como quero, quando quero. Que a minha confiança, a minha força, a minha protecção e conforto não sejam o sucesso, as conquistas, as pessoas, as instituições, os títulos, mas Tu. Ajuda-me a dar valor ao meu passado, e a tudo o que tens feito em mim e através de mim, mas ajuda-me também a não perder a espontaneidade, a atenção, a compaixão que só posso ter Contigo, nos Teus braços e, muitas vezes, ao Teu colo. Perdoa-me quando vivo indiferente e ausente dessa verdade. Assim seja”

Ana Ramalho

Tópico: O homem do carrossel - opinião

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