O abrigo das gentes

12-09-2010 01:28

Eu sei que nos meandros do desespero o inóspito pesar da condição que trouxeste até ti, vem como uma avalanche de orgulho ferido, de “eu” reduzido ao fascínio do pedestal em ruínas, que rejeitas afirmar.

Sei que não consegues parar, acordar, ver, reflectir e assumir perante todos o que dentro de ti é um suspiro cego pelo empolamento das decisões independentes, revoltosamente afirmadas como melhores perante o naturalmente bom que ofereceu a tua desconfiança.

Não escondo que imagino como a tua mente reage com a inércia do coração ferido numa auto-mutilação própria de quem se deu de corpo e alma às suas inteiras acções, do mais básico ao menos preliminar.

Essa posição de mãos imundas, sonhos rasgados, joelhos nus de pecaminosidade entranhada de dentro para fora, revelam-te como és mas como não queres ver-te.

Foges do espelho mais límpido, perfeito e certo, com um monstruoso receio de reconhecer a incapacidade vil e mortífera do passado presente que dita o teu futuro sombrio.

No melhor dos casos queria poder dizer-te o que não posso pelas muralhas imponentes que ergueste quando me distraí, sem querer uma barreira tão firme e impenetrável.

Sei que a coragem é escassa mesmo que até venha ao teu pensamento aquela solução simples, imerecida e tão doce que até amarga no hálito da tua podridão. Regressar de olhos caídos até Àquele que tem poder para aniquilar as marcas de toda a rebeldia insistente que te trouxe a herança servida num prato frio de morgue.

Aquele que sempre esteve presente na marca de água da tua consciência pesarosa mas adormecida pela iluminação pública das desculpas que inventavas para esquecer a cegueira privada. Aquele que não pede mas oferece, que não impõe mas pode, que não fecha a porta agora mas um dia. Aquele que tem o abrigo transformador certo para o incerto da vida, o penoso do tempo, o inseguro homem vil, o irreconciliável moribundo, o mais altivo e monstruoso.

Não te julgo incapaz mas temeroso dos que habitam esta casa cheia. Dos que se põem à porta a ver quem passa e a jurar que nunca outros que não os tais entrarão no abrigo certo. A apedrejar de longe quem não tem força para deixar a capa do passado e seguir até ao interior do abraço meigo mas tão afugentado do Criador e Pai.

Sei que tudo neste abrigo é imerecido. Até o apontar a porta, o receber-te e levar-te ao Anfitrião presente e desejoso de ter segurar. Até o mostrar as cicatrizes e as feridas que Ele ainda tem a tratar no meio das lutas pesadas que tenho comigo mesma. Até o suspirar de alegria pela paz que não consigo expressar por mais verbosidade que consiga adquirir nos tesouros das obras primas da literatura. Tudo é imerecido. Tudo leva a um apreço crescente pelo preço da graça constante e abundante que ainda retém a porta deste abrigo das gentes.

Fiquei tempo demais dentro do abrigo a contar estrelas e a pintar histórias de embalar. Tempo demais a alimentar o pedestal, o poleiro, a fama efémera de uns quantos serviços e afins e, afinal, o que resta do cansaço e do esforço pelo menos e mais, são umas poucas gramas de fruto nas mãos quase vazias de quem só concertou as cercas, o espantalho e o portão mas não tratou da vinha.

Quero estar à porta como chegares. Sejas quem fores. Venhas de onde vieres. Quero ser impelida de compaixão e graça, de Palavra e Espírito, de esperança e paz para carregar-te nos ombros que contam a história mais bonita que alguma vez me vai acontecer – a mesma que Ele deseja escrever depois de limpar o rascunho e os rabiscos da tua confusão.

Vou ficar alerta. À espreita. Vem, porque o tempo está a chegar ao fim. E o abrigo vai encerrar. Um dia.

 

Ana Ramalho