Não há casos perdidos

2010-03-08 17:52

O título talvez faça ressuscitar em alguns dos que me lêem episódios impregnados nas células mentais e emocionais desde a infância. “És um caso perdido!” diziam-nos, sem medir consequências.

Sem querer entrar num circuito de simplismo e facilitismo descartista, desta vez preencho o espaço com exemplos de carne e osso. Não os fui rebuscar do outro lado do oceano, mas nos cantos e recantos da minha história de vida. Supostos “casos perdidos” que fazem parte do meu caminho. Não dou rostos, nem nomes, nem locais. Mais do que satisfazer intriguismos, dou a conhecer rasgos de esperança, percursos reais e presentes.

 

Era bonita, inteligente, mas despida de amor próprio. Amigos, não tinha muitos. A pressão que o seu grupo de pares fazia era uma opressão que a levava a achar-se um “caso perdido”. Então, em vez de estabelecer pontes, criavam-se barreiras de parte a parte. Durante muito tempo fomos falando e orando. O processo de cura foi acontecendo, com altos e baixos. Os medos foram-se dissipando. As barreiras foram caindo. O valor próprio foi alinhado com a consciência do valor que ela tinha para Deus. Confiar as nossas feridas a alguém pode ser doloroso, mas é muitas vezes a forma que Deus usa para nos sarar.

Era despreocupado, inconsequente e amigo do seu amigo. Embora aparentemente estivesse tudo bem, há meses que andava a esconder da família e dos amigos aquela brincadeira que se tinha tornado num ritual e depois num vício. Uma passa, um cigarro, um maço. Já não dava ficar sem fumar. Era preciso. Tentava-se desculpar, como sempre fazemos quando sabemos que estamos reféns das nossas próprias escolhas, mas lá bem no fundo, ele sabia que estava aprisionado pelo tabaco, e que não estava a conseguir libertar-se (como dizia que conseguia fazer). Foram meses de oração e conversas, desde o dia em que recebi uma mensagem com um pedido de socorro... Ele estava consciente que tinha um problema – não se conseguia libertar daquele hábito. Falar com Deus honestamente era uma necessidade – é basilar nestes casos. Frustrações, lutas, vitórias. Passo a passo, Deus foi ajudando aquele rapaz a ultrapassar aquele vício. Afinal, não era um caso perdido.

Era gordinha, introvertida e birrenta. Ao entrar na adolescência foi molestada fisicamente por um homem com alguns problemas psíquicos. A partir dali, tentou esconder e esquecer o facto, mas as feridas estavam lá: tinha nojo do seu corpo, não se importava muito com o seu aspecto (como era normal para as raparigas da sua idade), o toque humano era-lhe incomodo. Refugiava-se a ajudar os outros, e projectava neles a solução dos seus problemas, angústia e frustração. Tentava estar sempre ao nível das expectativas alheias, especialmente no trabalho e na igreja. Mas, todo o rigor e profissionalismo tem limites – porque somos limitados – e, mais cedo ou mais tarde, ou não conseguia chegar às expectativas ou as pessoas/projectos em que colocava todo o seu empenho, iam por água a baixo. Mesmo que aparentemente fosse segura e cheia de sucesso, sentia-se perdida – um caso perdido. A sua cura começou com o confronto de alguém pelo modo como cuidava de si, de como se via. Ela descobriu que não era um “patinho feio”, que era amada por Deus sem que para isso tivesse feito alguma coisa, que era possível ultrapassar a dor de ter sido molestada, perdoar aquele homem e viver tudo o que Deus tinha para ela. Deus usou depois outra pessoa que tinha estado numa situação similar como ferramenta de conforto, cura e esperança na vida dela. Levou alguns anos, mas valeu a pena tentar a mudança.

Era trabalhador, dedicado e muito ligado à família. Quando nos conhecemos não fazia a mínima ideia do problema de saúde que transportava desde que se conhecia. Os altos e baixos emocionais, por ter uma doença crónica que o fazia perder a força, eram constantes, mas fizeram-no procurar em Deus o seu refúgio. Foi através de um texto que escrevi que resolveu partilhar a sua história comigo. De algum modo Deus tinha usado as minhas palavras para ajudá-lo. A doença ainda estava lá, companheira de todos os dias, e as dúvidas acerca do futuro também. No meio do turbilhão de emoções e questionamento, não deixou de lutar, de buscar de Deus a força emocional – e física – que necessitava. As melhorias foram progressivas, em ambas as áreas. Os anos passaram. A sua saúde ficou estabilizada. A obra de Deus na sua vida, nesta área, deu-lhe a base para prosseguir em frente, em vários níveis. Aquilo que era uma barreira, foi uma oportunidade para viver pela graça de Deus e ver a Sua mão, pouco a pouco, a sará-lo.

Era talentoso, motivador e amigo, mas estava enredado em vícios ocultos. Na adolescência, por revolta em relação à agressividade paterna, refugiou-se na masturbação. O tempo foi passando e, de escape, o suposto prazer passou a vício incontornável. As raízes e valores cristãos da infância conturbaram-se por mais de uma década, levadas pelo medo de rejeição e embaladas pela vida de “copos e festas”, que tentavam adormecer a sua consciência. Depois de Deus ir ao seu encontro, da sua restauração como filho de volta aos braços do Pai, a luta para sair do ciclo vicioso da promiscuidade sexual permanecia. Mas o Pai estava no processo. Um dia, como dois amigos de longa data, ele partilhou comigo em lágrimas a sua história. Ele não ficou confinado a ser um caso perdido. Consultou alguns recursos nesta área, via Internet, que o ajudaram, mas precisava de um “prestador de contas” ou “companheiro de corrida”. Era necessário ajudar aquela preciosa vida. Apesar de me sentir incapaz, fiquei para escutar, motivar e orar com ele. Num dos nossos “check-ups” ocasionais, meses depois, ele partilhou como Deus o tinha restaurado e como ele se sentia finalmente livre.

 

Para Deus não há casos perdidos. Nunca. O “negócio” de Deus é transformar vidas. Mudar corações, rumos, expectativas. Muitas vezes a solução está na graça que Deus dá para suportar o sofrimento, para mudar a perspectiva perante as situações. Noutros casos, Deus realiza autênticos milagres. Há uma coisa que podemos ter a certeza, quando nos predispomos a deixar Deus invadir a nossa vida, Ele vai transformar-nos – especialmente nas áreas que estão a afastar-nos do Seu propósito para nós em termos morais, emocionais, etc. Tudo parte da nossa confiança obediente aos Seus desejos.

Tu não és um caso perdido!

E se já foste encontrado pelo amor do Pai, pensa naquelas pessoas que são rotuladas como casos sem solução, que estão ao teu lado, e que precisam que lhes leves a mesma esperança que encontraste. Oferece aos outros o bem que Deus te deu.

Ana Ramalho

 

 

Tópico: Não há casos perdidos - opinião

Não há casos perdidos

Data: 2010-07-31 | De: Cristina Pereira

Das melhores coisas que já li, curto, objectivo e sem duvida motivador DTA

Não há casos perdidos

Data: 2010-03-28 | De: Maria Virginia

Boa noite:
Não a conheço, mas, pela fotografia, parece muito nova.
Os casos que relata falam de uma grande intimidade com essas pessoas.Gostaria de saber qual é a sua profissão.
Obrigada
Maria Virginia

Re:Não há casos perdidos

Data: 2010-04-03 | De: Ana Ramalho

Cara Maria,

Agradeço antes de mais o seu comentário.

Poder ler um pouco acerca do meu percurso aqui: http://anaramalho.webnode.com.pt/quemsou/

As histórias de diversas pessoas em diversos pontos da vida e do espaço não têm por objectivo satisfazer a curiosidade (nem estaria a ser justa ao fazê-lo), mas a ajudar outros a ultrapassar problemas.

Há casos em que a ajuda de um especialista (psicólogo ou psiquiatra) é fundamental. Aqui apenas fiz (ou acompanhei) o melhor que sabia/podia.

Deus a abençoe

Ana Ramalho

Não há casos perdidos

Data: 2010-03-09 | De: Eunice Lucero

Estou completamente de acordo com a Ana, Deus a usou e continua a usar para ajudar os outros.
Continue a ser uma bênção.
Beijinhos

Re:Não há casos perdidos

Data: 2010-03-24 | De: Ana Ramalho

Olá Eunice

Deus chama-nos a todos para cuidarmos uns dos outros. Precisamos cultivar isso e ajudar-nos mutuamente a crescer.

Obrigada pelas tuas palavras.

Beijinhos

Ana

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