Madrugadas de um navegante

27-10-2010 15:22

Como foi dura a noite. O vento cortou-me em pedaços o coração. A chuva diluiu abruptamente todos os meus ensejos. O mar quase me tragou a esperança.

Na minha pele seca e endurecida pelo sol e o sal, gemidos inóspitos esmeravam-se por esta noite sombria de breu e dor, de lágrimas encrespadas no Teu silêncio.

Porque estavas comigo pensava que iria de bonança em calmaria, de paz e sossego... mas tudo me transtornou de um momento para o outro. O revoltar do oceano da vida descontinuou a noite pacífica e tornou-me num navegante impróprio para o seguro.

Esperei um suspiro Teu no meio do nada, borda fora do Teu silêncio, no mastro do que pensava ser a Tua forma de agir. Desesperei por não Te entender realmente, por ter-Te como uma espécie de amuleto não assumido e não como Mestre, Senhor e amigo.

Até que percebi, de cara encharcada pelo lamento da minha incapacidade, como estava enganado. Escorreguei até Ti, no balançar turbulento do meu barco e pedi-Te ajuda.

Não me atiraste para fora de Ti, nem recusaste segurar-me no meio da tempestade aterradora. Antes de acalmares os murmúrios gritantes que suscitei à minha volta, ensinaste-me a lidar com eles e a confiar, mesmo no Teu silêncio.

Quando a chuva se foi, o mar se calou, o vento ganhou sono e as ondas me empurravam em frente, fizeste-me perceber como a diferença não era a Tua presença na embarcação, mas a minha dependência e entrega total.

Uma gota de chuva lembra as marcas da luta atroz da noite. Uma gota de orvalho explica o segredo da vida. Uma gota de sangue explica a resposta para a morte, a separação eterna do dador de tudo, do Senhor da vida e das vidas que O querem abraçar.

Tu deste a Tua vida para me dar um rumo, uma segurança e uma resposta a todas as perguntas, mesmo que seja apenas “Confia em mim”.

A sua cólera dura só um momento. A sua boa vontade dura a vida inteira. Posso chorar uma noite inteira, mas sei que pela manhã virá a alegria.” (Salmo 30:5, versão “O Livro”)

 

 

Ana Ramalho

 

Este artigo foi escrito inspirado na música “Contigo”, cuja letra é da autoria de Rute Alves

 

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