Igreja - intenções e outras confissões

18-03-2010 01:54

Estou prestes a fazer uma confissão que talvez possa ser interpretada por alguns como uma radicalização exacerbada dos factos e uma falta de fé brutal demais para alguém que se diz cristão.Ora, perdoem a minha sinceridade, mas por vezes precisamos chamar as coisas pelos nomes e assumir preto no branco os nossos erros e devaneios. Sei que é inconveniente, mas tem que ser dito.

 

Esta é a confissão: sou imperfeita. “Só isso?!” pode alguém exclamar, indignado por ter desperdiçado do seu precioso tempo a ler o artigo até aqui. Sim. É isso mesmo: confesso que sou imperfeita... mas há mais.

 

UMA CONVERSA DE CAFÉ

Há meses atrás, numa das muitas “conversas de café” em que me cruzo com gente de agora e de outros tempos, alguém “caloiro” na fé confessava como ao escutar e observar por alguns meses os “veteranos”, achava que, de alguma forma, nós – porque também me incluiu nos “veteranos” – estamos num patamar superior... tipo “anjos sem asas” ou humanos que andam a “flutuar”, como se já a preparar-se para o Céu.Desmistifiquei o melhor que pude a imagem estereotipada que um “cristão caloiro” pintou, acerca dos seus pares. Pelo menos verbalmente. Na prática, não sei se a minha argumentação foi, de facto, convincente.

 

No percurso, desde a despedida do “recruta” até agora, os episódios com outros “guerreiros” e “guerreiras” multiplicaram-se. A análise grosseira mas atenta que faço do que ouço e leio por aí é esta: como não nos assumimos imperfeitos em aperfeiçoamento, construímos uma espécie de barreira de protecção que nos impede de sermos uns para os outros o que Deus deseja que sejamos, como igreja.

 

Conceito complicado? Talvez... de facto, é simples assumirmos as nossas limitações em termos gerais, mas mais difícil falarmos delas. Não falamos dos nossos erros, lutas e misérias, feridas e recalcamentos, porque nos é incómodo, e depois, o tempo que passamos juntos é mais no sentido de alimentar um relacionamento “vertical” (com Deus) e menos “horizontal” (uns com os outros).Mas não estou a falar de relacionamentos que se ficam por respeitosos, polidos e domingueiros... é mais do que isso. É rebentar, com a dinamite do amor que Deus coloca nas nossas vidas, os muros da indiferença, egoísmo, apatia e mornidão que nos impedem de chegarmos ao coração uns dos outros.

 

“Pois... isso é falta de profundidade bíblica e imaturidade espiritual” opinam algumas mentes. Então, pronto, vamos à Bíblia!

 

 

A NOSSA IDENTIDADE

“Assim, dou-vos agora um novo mandamento: que se amem uns aos outros. Como eu vos tenho amado, assim devem amar-se uns aos outros. O vosso amor uns pelos outros provará ao mundo que são meus discípulos.” (João 13:34-35)

 

O amor interpessoal é uma prova da nossa identidade como filhos de Deus, o Pai amoroso... “Deus é amor”, diz a Bíblia e aquele “clássico” que aprendi em criança. Dizemos aos quatro ventos como é essencial desenvolvermos intimidade com Deus para crescermos no relacionamento com Ele. Mas quando se fala nos relacionamentos com os nossos manos, parece que temos mais dificuldade em aplicarmos o mesmo princípio... Argumento fácil? Talvez. Vamos à Bíblia.

 

“Aqueles que creram nas palavras de Pedro foram baptizados, cerca de três mil ao todo, e juntaram-se aos outros crentes, participando regularmente no ensino administrado pelos apóstolos, na união fraterna, no partir do pão e nas orações. Todos sentiam profundo temor e respeito, e os apóstolos faziam muitos milagres. Os crentes encontravam-se constantemente, repartindo tudo uns com os outros, vendendo os seus bens e ajudando os necessitados. Cada dia adoravam juntos no templo; reuniam-se em pequenos grupos familiares para celebrar a comunhão, e tomavam as refeições em comum, com grande alegria e gratidão, louvando Deus. A cidade inteira via-os com bons olhos e todos os dias Deus ia acrescentando ao seu número aqueles que se salvavam.” (Actos 2: 41-47)

A comunhão não era APENAS no “culto de Ceia”. A comunhão era a vida normal da igreja. E é nessa relação interpessoal que surgiam as oportunidades de alcance. As pessoas não cristãs admiravam o modo de vida da igreja, porque em tudo o que faziam estavam juntos e unidos...

O amor fraternal não é um mero sentimento – reflecte-se em acções concretas. Essa acções desenvolvem-se na interacção e só pode haver interacção se existirem pessoas com disponibilidade, disposição e oportunidade para interagir. A comunhão não é fruto do acaso.

 

“Sendo assim, recebam-se afectuosamente uns aos outros, tal como Cristo vos recebeu a vocês mesmos, e assim Deus será glorificado.” (Romanos 15:7)

 

“Procuremos desenvolver entre nós o amor fraternal e estimulemo-nos a fazer o bem. Não descuidemos a nossa participação na comunidade dos crentes, como muitos fazem. Pelo contrário, animemo-nos uns aos outros, tanto mais que vemos aproximar-se o grande momento da sua segunda vinda.” (Hebreus 10:24-25)

 

“E agora, irmãos termino. Alegrem-se, e aperfeiçoem-se em Cristo; encorajem-se uns aos outros. Vivam em harmonia e paz, e o Deus de amor e de paz será convosco.” (2 Coríntios 13:11)

 

O amor fraternal desenvolve-se... não funciona automaticamente quando nos cumprimentamos ou chamamos de irmãos. Sim, somos irmãos, e não há nada errado em nos tratarmos dessa forma (embora eu prefira “manos”), mas acima de tudo, devemos tratar-nos de forma prática como irmãos, filhos do Pai amoroso, que nos adoptou pela Sua graça. Em boa verdade, os filhos não devem ser estranhos que partilham a mesma casa, e só lá vão para receber “cama, comida e roupa lavada”. Apenas entrar e sair das reuniões da igreja onde fomos “carregar as nossas baterias”, é viver um cristianismo coxo, egoísta, fácil e distorcido. Jesus não nos chamou para consumir igreja mas para ser igreja (com tudo o que isso implica).

 

 

UMA VIDA EM FAMÍLIA

“Porque assim como o nosso corpo é formado de várias partes, e cada uma tem uma função própria, o mesmo acontece com o corpo de Cristo. Nós somos todos partes dele, e cada um de nós tem uma função diferente a executar. Por isso também precisamos uns dos outros, e uns aos outros nos pertencemos.” (Romanos 12:4-5)

 

“Por isso não se critiquem mais uns aos outros. Em vez disso, procurem viver de tal modo que nada do que fazem possa levar o vosso irmão a pecar, ou a ficar perturbado na sua consciência.” (Romanos 14:13)

 

“Porque afinal toda a lei se resume num só mandamento: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Mas se pelo contrário vocês se andam a criticar e a insultar uns aos outros, tenham cuidado, porque dessa maneira podem chegar a destruir totalmente a vida espiritual uns dos outros. E eis o conselho que vos dou: Andem debaixo da direcção do Espírito, e dessa forma não darão satisfação aos apelos dos vossos instintos.” (Gálatas 5:14-16)

 

Em família, na vida diária, acontece de tudo. Os irmãos conhecem-se, no bem e no mal. Somos todos diferentes (o nosso Criador é um artesão de vidas, não um industrial), e por isso, no meio de toda a riqueza da nossa diversidade, vai haver também os desatinos e incompreensões resultados das diferenças. É normal e inevitável. Agora, tudo depende de como resolvemos essas desavenças e divergências de opinião.

Costumo dizer que, quando aceitamos o desafio de Jesus para nos arrependermos e começarmos uma caminhada com o Pai, deixamos de dizer “eu” e passamos a dizer “nós”. Igreja é isso mesmo. Devemos pensar no que é mais saudável e positivo para os nossos manos, e não apenas para aquilo que “me” faz sentir bem.

 

 

SEM MÁSCARAS NEM ORGULHO

“Que o amor que mostrarem pelos outros seja autêntico. Tenham horror ao mal. Tomem sempre posição do lado do bem. Amem-se uns aos outros com uma afeição verdadeira. Ponham os outros sempre em primeiro lugar. Não sejam nunca preguiçosos no vosso trabalho; sirvam o Senhor com todo o fervor.” (Romanos 12:9-11)

 

“Respeitem-se uns aos outros porque assim estão a respeitar Cristo.” (Efésios 5:21)

 

Não façam nada que seja motivado por despique, nem que seja provocado por interesses pessoais. Mas sejam humildes: que cada um considere os outros superiores a si mesmo.” (Filipenses 2:3)

“Confessem as vossas faltas uns aos outros, e também orem uns pelos outros; assim serão curados. A oração feita por um justo alcançará resultados muito grandes.” (Tiago 3:16)

 

Meus irmãos, se alguém vier a cometer pecado, aqueles de entre vocês que possuem uma mente espiritual procurem encaminhá-lo com bondade; e sem qualquer sentimento de superioridade, pois cada um de nós está sujeito a ser tentado. Partilhem uns com os outros o peso das vossas dificuldades, e assim cumprirão o mandamento de Cristo. Se alguém se julga importante demais para ajudar a levar os fardos dos outros, está a iludir-se a si próprio.” (Gálatas 6:1-3)

“Se algum de vocês se tiver desviado da verdade, e outro o ajudar a voltar, irmãos,  lembrem-se disto: aquele que ajuda qualquer pecador a deixar o seu erro salvará essa alma da morte e contribuirá para o perdão de muitos pecados.” (Tiago 3:19-20)

 

É fácil atirar pedras para os outros quando eles falham.. mas carregá-los às costas dias, meses e até anos? E quando aquela pessoa da nossa comunidade assume que tem problemas de pornografia, que não se consegue libertar... como é que Paulo diz que devemos fazer? Ajudar alguém sem ver logo o fruto, ainda por cima um irmão na fé?

 

Um clima de respeito, afecto saudável, autenticidade, aceitação, compaixão, transformação e cura não se consegue num decreto, num argumento, num “forcing”. É preciso uma cultura de igreja, que nos envolva a todos como Corpo de Cristo, a cooperar para o desenvolvimento de relacionamentos saudáveis que se vão tornando profundos – em grupos mais pequenos primeiro, e no todo por consequência - e vão dando espaço para o Espírito Santo agir, fazendo cada filho de Deus crescer.

 

Uma cultura cultiva-se, cuida-se, rega-se... e Deus dá o crescimento.  enho uma má notícia para quem gosta de “receitas infalíveis”: não é fácil criar nem manter um ambiente assim. Primeiro porque é completamente “anti” a cultura de perfeccionismo aparente que ainda está tão enraizada nos nossos inconscientes e na nossa praxis. Segundo, porque faz-nos abdicar de mordomias, revoluciona as nossas agendas e invade o nosso tempo, a nossa mente com as preocupações com as vidas daqueles que são connosco igreja.

 

O exemplo começa em mim. Se quero criar um clima de aceitação, no qual as pessoas possam ser ajudadas na sua caminhada pessoal com Deus, preciso fazer a minha parte. Isto começa por assumir que eu mesma estou num percurso pessoal de conhecer Deus, de experimentar a vida com Ele, de resolver problemas, vigiar tentações e procurar ser continuamente transformada pelo Seu Espírito. Assumir erros, falhas do passado, lutas do presente. Assumir de onde vem a resposta, a paciência, a fé, a paz. Sou imperfeita em aperfeiçoamento!

 

Lembram-se do que Paulo disse quando escreveu aos cristãos que estavam em Roma? “Não me compreendo: porque na realidade o que faço, sei que não é bom. E aquilo que eu reconheço ser recto, não consigo fazer. E venho a fazer até aquilo que, no íntimo, repudio. E se a minha consciência reconhece como errado isso que faço, ela própria me é testemunha de que são boas as leis de Deus a que desobedeço. Mas não posso evitá-lo, porque já não sou eu mesmo quem faz isso; é o pecado dentro de mim.” (Romanos  7:15-17), Paulo assume, a certa altura, que era como todos os que o liam. E eu? Digo isto apenas “eu também” porque a Bíblia o diz, ou assumo-o no meu modo de ver a vida e as pessoas, e nas minhas atitudes práticas de planear, agir, treinar outros?

 

Depois, estar perto das pessoas, como Jesus estava. Isso exige de nós algo que muitas vezes não queremos ter – proximidade suficiente para nos detectarem as cicatrizes e as mazelas. É mais fácil nos escondermos e evitarmos um patamar de intimidade mais profunda. E não estou a falar de termos acesso a tudo o que se passa, tipo PIDE, com câmaras ocultas e escutas - simplesmente sermos amigos, como Jesus era.Mas é nesta comunhão que nos conhecemos, nos podemos estimular, ajudar mutuamente, crescer. A Palavra que partilhamos tem uma importância vital, mas experimentar essa Palavra em conjunto, como Corpo, amplia a sua efectividade e passa de teoria para realismo – tal  como a igreja nascente.

 

 

UMA BREVE CONCLUSÃO

Trabalhar com gente não é uma viagem tranquila. Para mim, é mais fácil ir para a biblioteca "devorar" tudo o que se pode e fazer um estudo completo e profundo. É mais fácil – e até me sustenta uma certa pompa e circunstância – encher o currículo com títulos e obrigações, o calendário com reuniões e mais isto e aquilo. É mais fácil bombardear de eventos o meu ano, e depois dizer “Uau! Fiz tantas coisas! Andei tão ocupada com o Reino”. Se eu andasse realmente ocupada com o Reino de Deus, estaria ocupada com pessoas, e tudo seria direccionado para fazê-las entrar, crescer e multiplicar o Reino. Lamento dizer que Jesus não morreu pelo meu plano de trabalho, mas pelas pessoas com que trabalho e para quem trabalho. Jesus não morreu para me encher de cargos, mas para que eu desse a vida por uma carga apenas: vidas.

 

Se não temos uma genuína e desinteressada preocupação pelas pessoas que Deus colocou à nossa volta, neste caso falo de igreja, então temos um problema: nós! Eu sou um problema para o avanço da igreja, de acordo com o que Deus mostra no manual – a Bíblia – quando penso, actuo e proclamo como irrevogável uma ligeira distorção ou grande desvio do que Ele determinou como princípio fundamental. Não precisamos ter medo de assumir que estamos errados... precisamos, sim, temer a perda de ligação, de sentido de pertença, das pessoas que fazem parte do Corpo, pela nossa negligência ou orgulho. É um erro quando o que penso e invento como projecto, evento, sonho não tem objectivos claros de crescimento qualitativo e quantitativo do tesouro que Deus me colocou nas mãos - pessoas.

 

Para que sejamos igreja, num clima que seja facilitador do crescimento saudável, o modo como organizamos a vida das nossas comunidades, das nossas famílias de cristãos, das nossas congregações, precisa ser intencional. E não precisamos de nenhuma revelação para perceber como estes fundamentos são tão importantes – temos a Bíblia!

 

E agora? Compreendem a minha confissão? E a vossa? Qual é?

 

(Versão de Bíblia usada "O Livro")

Tópico: Igreja - intenções e outras confissões - opinião

Data: 15-04-2010

De: Marina Monteiro

Assunto: apontar o dedo é tão fácil

Belo "puxão de orelhas" para mim.
O meu grande desejo é mostrar ás pessoas que me rodeiam (inimigos, amigos, familia..) que Jesus está comigo, que a minha vida mudou pela Sua graça e amor, e que eu nasci num coração novo.
Mas muitas vezes deixo-me levar pelas situações do mundo, e quando dou por mim já estou a criticar e julgar alguém... Que em vez das nossas críticas precisa de elos que mostrem a Verdade .Então sem dar por isso estou a fazer o contrario do que eu desejo.

Que Deus me e nos encha do Seu Espírito Santo e assim possamos obedecer-Lhe e lidar da melhor forma em todas as situações deste mundo.

Data: 21-04-2010

De: Ana Ramalho

Assunto: Re:apontar o dedo é tão fácil

Olá Marina!

Obrigada pelo teu comentário...

Precisamos deixar que, a cada dia, Deus nos encha com o Seu amor e compaixão, para podermos ver os outros como Ele os vê.

E parabéns pela coragem de ler este longo artigo!

beijinhos

Ana

Data: 25-03-2010

De: sergio

Assunto: concordo com voce ana

creio que muitas vezes acontece o que jesus disse ;que por se mutiplicar a iniquidade o amor de quase todos se esfriariam temos que lutar para ficar quase a paz do senhor.

Data: 25-03-2010

De: Ana Ramalho

Assunto: Re:concordo com voce ana

Olá Sérgio

Obrigada pelo seu comentário! De facto, precisamos voltar a olhar para os princípios daigreja nascente para sermos relevantes no nosso tempo, porque são princípios imutáveis!

Ana

Data: 19-03-2010

De: Davide Vidal

Assunto: Muito bem Ana!

Pensei que era só eu... tambem confesso que me esqueço (vezes de mais) do que é mais importante: As pessoas por quem Jesus morreu

Data: 24-03-2010

De: Ana Ramalho

Assunto: Re:Muito bem Ana!

Olá Davide

Agradeço o teu comentário. No fundo este é um "lembrete" para mim, em 1º lugar.

Deus nos ajude a gerir bem as nossas prioridades.

Ana

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