Danças, mudanças e "mundanças"

08-03-2010 01:41

 dançaS

Soltou-se o som que habitualmente inundava o recinto. As caras de sempre, com a falta dos que partiram e as histórias dos tempos gloriosos daquele salão. Lá vamos nós, os pares que se reúnem ali há anos, sem perder uma sessão. Dançar, sim. A música não tem variação. Simplesmente já não há vinil, apenas CD.

Como nunca conhecemos mais nada ou rejeitámos tudo o que nos levava a inovar um pouco que fosse, continuamos nas mesmas voltas, nos mesmos passos, os mesmos pares, no mesmo salão com o chão já gasto dessa mesmice cerimoniosamente preservada. Dançamos no mesmo ritmo, ao som da mesma música, no entediado dia a dia da agenda rígida.

A rotina enferrujada. O “sempre se fez assim” empedernido. O circuito maçudo conhecido de olhos fechados. Já se sabe o que vem a seguir... porque sempre vimos tudo igual, sem tirar nem pôr. Ela pode perigosamente tornar-se em tradição inviolável... e isso cria prisões dissimuladas, nostalgias insaciáveis, barreiras intransponíveis.

Talvez esta ilustração se possa aplicar a muitas áreas, mas gostaria de fazê-lo prontamente acerca de uma área importantíssima: liderança.

Líderes, na minha humilde definição, são todos os que influenciam outros. Nas empresas, no governo, na igreja, nos ministérios, nas instituições, os líderes são pessoas que estão a servir outros no sentido de fazê-los crescer e tornar-se influenciadores, enquanto estão envolvidos numa causa comum, com objectivos e estratégias claras, precisas e decifráveis por todos.

 

mudançaS

Eu gosto de trabalhar em equipa. Já fui líder e liderada em muitos campos, em muitos projectos, com uma variedade considerável de pessoas. É desafiante. E quanto maior é a equipa que estamos a servir, a coordenar, a influenciar, maior é a responsabilidade e o privilégio. Mas há um assunto que acaba por ser sempre delicado no meio de toda a boa vontade, de toda a experiência e boa organização: a mudança.

As mudanças podem surgir por reacção ou por prevenção. Por reacção é quando somos forçados a mudar, via das circunstâncias. Aconteceu um acidente, um imprevisto e temos que agir com urgência. Por prevenção é quando tentamos analisar o passado/presente e alguns indícios que temos do futuro, e estabelecemos alguma estratégia nova.

Infelizmente a História diz-nos que os Portugueses são mais reactivos do que preventivos... É como se andássemos sempre a por o pneu sobresselente, porque não mudamos os pneus carecas todos de uma vez e vão furando um a um. Gastamos mais energias, mais tempo, mais dinheiro – e temos/damos mais dores de cabeça!

A rotina é-nos necessária para dar estabilidade, para desenvolvermo-nos como pessoas, estruturar projectos, consolidar experiências. No entanto também necessitamos da humildade, o discernimento, a visão, a coragem e a urgência de nos afastarmos um pouco do mundo “de sempre” e verificar se apenas nos entretemos em rodas vivas de estigmatismo estratégico ou se realmente estamos a ser relevantes e a criar impacto noutros.

É fácil sermos escravos impassíveis da rotina. É melhor saber o que fazer e como fazer do que enfrentar o desconforto do desconhecido, as agruras do presente que não idealizámos, a insegurança de (re)começar.

Estou a colocar-me debaixo da mira do meu próprio tema porque eu odeio mudança - mesmo! Detesto mudar os objectivos, os planos, as estruturas, os métodos, ou a estratégia no seu global. Sim, reconheço que para mim se tudo ficasse como estava previsto e não fosse preciso sentir-me desconfortável com essa ideia de voltar a entrar numa espécie de deserto estratégico, de pobreza criativa ou abandono desalinhado, eu era muito mais feliz... mas será que era mesmo?

E se não repensar no meu desempenho, nos projectos e nas pessoas que Deus me tem dado para servir? Se não avaliar o que está bem? Se não tiver coragem de dizer que, mesmo com a graça de Deus e com a Sua bênção, há áreas em que falhei redondamente? O que acontecerá no meu ministério, nas pessoas cooperam comigo, no Reino do Pai? Quantas experiências me passarão ao lado? Quantas coisas ficarão apenas num sonho que se dissipou? Quantos talentos debaixo do pó? Quantas pessoas arrumadas, a apodrecer no seu mundo, sem ser transformadas por Deus? Quantos erros passarão de uma inocente onda a um tsunami devastador?

 

“MUNDANçaS”

O outro lado da moeda está em aceitar sem filtrar tudo e mais alguma coisa que se oferece como iluminada, nova, milagrosa e reluzente.

Há pouco tempo ouvir acerca do trabalho dos peritos em detectar notas falsas nos Estados Unidos. Eles preocupam-se em conhecer detalhadamente as notas verdadeiras. A textura, a cor, os caracteres, os desenhos, o tipo de papel, etc. Eles conhecem tão bem a nota verdadeira que facilmente identificam uma nota falsa.

É necessário conhecermos a verdade, a Palavra de Deus, e o Autor da mesma, para podermos ter a capacidade de discernir quais as mudanças inconvenientes que a sociedade toma como normais e aceitáveis.

Gosto daquela ideia “examinai tudo e retende o bem”. O meu problema é que eu não tenho paciência para estudar, pensar ou examinar. Então, ou aceito sem filtrar, ou rejeito tudo sem pensar.

Há excelentes oportunidades e ideias que podemos (e devemos) aproveitar, mas há meias-verdades que precisamos rejeitar. Mudar, sim, mas não “mundar”. Não devemos ser esponjas de todo e qualquer pensamento, quer secular quer religioso, nem tampas carragadas de boas intenções tradicionais mas perigosamente paralisadoras do progresso do Reino de Deus. Precisamos ser filtros baseados na Verdade – Palavra e Pessoa. 

 

TRANSFORMAÇÃO

“Não se conformem com os padrões e costumes deste mundo, mas sejam como gente diferente, através da renovação da vossa maneira de pensar. E dessa forma conhecerão o que Deus deseja que façam, e verão como a sua vontade é realmente boa, agradável e perfeita.” (Romanos 12:2, versão “O Livro”)

Quando penso na grande responsabilidade que Deus me dá como Sua filha em gerir dos dons que Ele me deu (mordomia, se quisermos usar o termo mais usual) e cuidar das pessoas que Ele colocou à minha volta, eu não tenho escolha possível! Eu preciso pôr-me em causa. Para isso, necessito orar, escutar Deus, alimentar-me da Palavra, pensar, ler e ouvir pessoas que são referência nas áreas em que estou a servir, etc.

Preciso ter momentos de reflexão apropriados em que, com a ajuda de outros e de Deus, faça uma retrospectiva realista das coisas. Preciso ter um relacionamento de dependência e constante actualização, quer ao nível vertical (eu e o Pai) quando horizontal (eu e tudo o resto).

Outra coisa que preciso é ter a noção que o Reino de Deus não é o meu reino. O Reino de Deus tem apenas e só uma bandeira: Jesus. O Reino de Deus traduz-se apenas e só num verbo: amar. O Reino de Deus tem apenas e só um tesouro: pessoas. O Reino de Deus tem apenas e só um Senhor: Jesus. Não existe lei, politica, rótulo, nome ou tradição que seja mais merecedora do meu empenho, dedicação, investimento e energias do que o Reino do Pai.

Nenhum líder tem buracos nas mãos, por isso, ninguém tem o direito de reivindicar para si mesmo o senhorio de qualquer célula, por mais minúscula que seja, do Corpo de Cristo. Apenas somos servos e servas d’Aquele que Se tornou Servo para conquistar o senhorio amoroso da nossa existência.

Não tenhamos ilusões acerca disto! Quando deixo de servir os outros no meu papel de líder para me servir dos outros, estou a pensar no meu reino. Quando uso o meu título ou posição com orgulho e presunção, como se fosse mais do que qualquer outro ser humano, estou a pensar no meu reino. Quando trato as pessoas como meros números e funções, estou a pensar no meu reino. Quando derrubo em mil pedaços as ideias alheias para levar avante a melhor (que é sempre a minha), estou a pensar no meu reino. Quando a minha prioridade passam a ser os meus títulos, diplomas, prestígio e ”louros”, em vez de ser as pessoas, estou a pensar no meu reino.

Não sou um génio, que tem soluções infalíveis. Não sou um “cavaleiro solitário” que pensa e faz tudo sozinho. Não sou uma iluminada, que tem “a” ideia que todos procuravam. Não sou um canivete suíço, que “desenrasca” tudo em todo o lado. Não sou uma patroa, que se usa das pessoas para chegar onde quer. Não sou omnisciente, omnipotente nem omnipresente. Nem eu, nem ninguém, lamento informar!

Eu sou apenas uma filha que serve o Pai e as pessoas através dos dons que Ele me tem dado, como prova e instrumento de gratidão e amor pela Sua graça. E é bom que, no cume do sucesso ou no vale da incompreensão, eu me recorde sempre disso.

Amigos colegas de equipa, em qualquer área do Corpo de Cristo, é fácil deixar-se embalar pela dança da rotina, é muito tentador ir na força da maré do mundo... mas é um desafio transformador mudar com Deus e em Deus. Mudanças de acção exigem uma transformação interior que só Deus pode operar em nós.

 

 

Pai, eu preciso pedir perdão pela minha arrogância em não (re)pensar-me tantas vezes, da minha frieza em relação aos problemas daqueles que cooperam comigo, da prioridade que tenho dado às coisas e não a Ti nem àqueles que Tu amas – as pessoas. Preciso que me ajudes a estar mais perto de Ti, a escutar-Te, a conhecer a Tua Palavra para caminhar em segurança no meio de todas as mudanças e, principalmente, na transformação que Tu queres fazer em mim e através de mim. Obrigada por ainda me transformares hoje.

 

Assim seja...

 

Ana Ramalho

 

 

Tópico: Danças, mudanças e "mundanças" - opinião

Data: 23-03-2010

De: Amélia Martinho

Assunto: Comentário

Olá Ana!!
Obrigado porque mesmo longe tu continuas a ser uma benção nas nossas vidas.
Queria dizer-te que nem podes imaginar o quanto fui abençoada.
Qu Deus ricamente te abençõe e que te continue a abençoar desta forma.
Beijocas.
DTA

Data: 24-03-2010

De: Ana Ramalho

Assunto: Re:Comentário

Querida Amélia

É bom continuar a ser de bênção, mesmo à distância!
Obrigada pela tua mensagem!

Beijinhos,

Ana

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