CARN[com]AVAL

07-03-2011 00:01

 

Quando me deixo dominar pelas minhas ideias demolidoras, evitáveis, mesquinhas, odiosas a roçar o pensamento devastador.

Quando me deixo rodear pelo novelo laçoso da mediocridade do meu interior caído, propenso a uma boa manifestação de entusiasmo pelo alento invertido nas brasas do desânimo pessoal.

Quando alimento os pensamentos que me trocam a verdade eterna pela minha leviandade passageira, morbidamente disfarçada de luz e progresso, faço crescer o “eu” matreiro e enganador que quer dominar os meus passos.

Quando recupero o biblot do ódio (re)passado, com aroma a podridão insaciável, e o afago delicadamente como se se tratasse de um vaso valioso e imperdoavelmente imperdível, num egocentrismo a que gosto de rotular de humano.

Quando me aconchego desalmadamente no conforto dos direitos, nas inclinações poético-críticas do descontrole asseado dos meus instintos.

Quando odeio a verdade de que preciso de um travão, mesmo que amargo mas remédio necessário, sem posto de vigia pessoal nem alheio, sem limites próprios nem de cima, sem Rei nem respeito.

Quando dou um aval pequeno a uma pequena partícula de uma mágoa particular, entrego à carne o acesso à minha vontade, o regresso ao andar pelo meu sabor imparável. Um pequeno passo para a liberdade do “eu”, mas um grande passo para a libertinagem da carne – sem sangue nem ossos, mas com muita energia.

Pai, que Tu tenhas todo o aval para me transformar, guiar, animar, corrigir, estimular, avisar. Que a minha tendência inata para viver à minha maneira seja destronada a cada instante pela Tua acção constante em mim. Ajuda-me a vigiar. Sê Tu em mim a dar-me a força para prosseguir nesta aventura longa, trabalhosa mas recompensante – porque no final do caminho estás Tu! Assim seja!