Balancé

02-01-2011 11:40

Uma folha em branco. Um ano inteiro para rever. Em poucos minutos, o grafite invade a página e recolhe uma lista mais ou menos ordenada com factos, nomes, tarefas e desocupações.

Pouso o caderno e a lapiseira... e recuso-me prosseguir sem Ti. Mais um ano que se finda e, não tanto por tradição mas mais por necessidade, entro no balanço para que não perca o equilíbrio... mas eu quero mais do que o bem-estar humanista, o ideal psicossocial, a guerra dos resultados – quero saber a Tua opinião, a Tua verdade.

Redescubro caras sorridentes ou efeitos menos positivos. Relembro coisas que ficaram por fazer e outras que nunca devia ter feito. Recordo os meus erros, as minhas conquistas, as pessoas que conheci e as que me passaram a desconhecer. Sem doze passas para comer, porque não sou de superstições, mas com uma dose de acontecimentos para gerir, digerir e reagir... Pai, preciso ser encontrada onde me perdi e perder-me onde deixe que o orgulho fosse mestre e senhor – mesmo que ninguém o veja ou pressinta. Que Tu me leias, devolvas o que vês e faças mudar.

Foi um ano de amadurecimento, de resistência às tempestades, de cimentar a descoberta do que vale realmente a pena – entregar-me mais a Ti e, por Tua causa, investir nas pessoas.

Um ano em que me voltaste a desafiar a sair da mesmice da vida confortável de quem se recolhe dentro do saleiro, sacudindo-me com as feridas, as dores e escolhas inóspitas de almas sedentas, inseguras, perdidas... à procura do mesmo que eu, mas à espera que alguém fosse o sal que lhes apontaria o sabor da vida, sal que egoisticamente ainda acumulo tantas vezes e, em parte, deixo que se torne insípido, altivo, e mesmo destruidor.

No ano que findou dei-Te trabalho, mas sei que continuaste a fazer em mim a Tua obra transformadora, quando deixei de lado a minha razão e me deixei guiar pela Tua mão. Não porque fosse melhor que os outros, mas porque a Tua graça se fez presente para me fazer humilde no sucesso do carisma e esperançosa nas tantas falhas de carácter.

Um ano que começou cinzento, mas se coloriu pela construção da felicidade dos outros, e terminou com desafios jamais previstos – porque aprendi a viver com a alegria de ser Tua e a depositar em Ti as lágrimas dos acontecimentos que queriam matar a paz que tenho apenas Contigo.

Nesta reflexão quero, acima de tudo, perceber como posso ser mais a menina do Papá – estar onde Tu queres, ser cada vez mais parecida Contigo, deixar de lado aquilo que é acessório e manter-me focada naquilo que achas essencial, Paizinho.

Neste ano que termina, antes de virar a página do calendário, revejo como fui carregando-me de tarefas, quando já tinha mais que suficientes. Perdoa a minha mania de querer ser “super”... sei que já fui pior, mas ainda tenho esta ideia que vou salvar “um bocadinho” do mundo se fizer mais isto ou mais aquilo... mas chego à conclusão que não tenho prestado muita atenção às Tuas prioridades. No ano que chega não quero viver escrava da performance, sem alimento do Céu nem abraços da Terra. Não quero dizer “sim” a todas as vozes, todos os requisitos, todas as expectativas, todas as pessoas.

Não quero ficar presa nas grades da agenda, nos múltiplos afazeres da vida, nem nos cuidados do ministério que me podem fazer perder o foco da Pessoa a quem amo acima de tudo, sigo e sirvo... Tu sabes tudo, e sabes que quero fazer tudo para Te agradar!

Não que seja premeditado, mas como a primavera se rende ao verão, uma época dá lugar a outra, naturalmente. Sei que tens cuidado de mim em cada detalhe, no momento certo... especialmente neste momento, quando as mudanças sem previsibilidade e invadem os pressupostos tradicionais, esperados e predefinidos. E sei que este é um tempo de mudança – não só do calendário mas da estação da vida. E eu quero fazê-lo em Ti, Contigo e para Ti.

Ajuda-me a ir além das intenções que registo. Ajuda-me a continuar a olhar para Ti, todos os dias. Assim seja.

 

Ana Ramalho